A planta Cannabis Sativa Linnaeus possui centenas de compostos químicos, mas quando falamos do efeito da erva no organismo humano, podemos ignorar quase todos e focar só em dois: tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). Quando o THC chega no cérebro, vemos os primeiros sinais do uso da maconha. Ele impede a produção de um importante mensageiro do cérebro chamado adenosina monofosfato cíclico (AMPc). Sem ele, os neurônios não conseguem se comunicar de forma eficiente e isso diminui temporariamente a atividade cerebral. Isso resulta em raciocínio mais lento, relaxamento e sensação de que as coisas estão em “câmera lenta”. Mas ele também age como estimulante em algumas regiões do cérebro, incluindo as ligadas aos 5 sentidos, aumentando o fluxo sanguíneo e a liberação da dopamina, o neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa e é o que está por trás do vício. Com isso, a pessoa pode ver cores brilhantes, alucinações, sensações de sentidos aguçados, euforia e a “larica” (a fome que aparece independente de a pessoa estar de estômago vazio). Esse é o “barato”, que pode durar de 6 a 12 horas.
Enquanto isso, o CBD também está
no cérebro, mas não altera comportamento nem percepção da realidade, sendo que
na verdade diminui os efeitos psicoativos do THC, pode desligar neurônios e
impedir que liberem moléculas ligadas à dor e à inflamação. Tanto o THC quanto
o CDB tem uma estrutura parecida com moléculas que nosso corpo produz: endocanabinóides.
Mas o organismo não consegue
diferenciar os próprios canabidióides daqueles que vieram da maconha. Esse
desbalanço pode ser benéfico contra doenças onde comunicação entre neurônios já
está alterada, como esclerose múltipla, em que os neurônios da dor ficam
constantemente ativados, ou epilepsia, em que a hiperatividade dos neurônios
geram convulsões. Um dos efeitos do CDB é diminuir os sinais elétricos que os
neurônios disparam. O THC segue na mesma linha com sua ação de relaxamento e de
estimular algumas regiões do cérebro. Mas o uso destas duas substâncias
concentradas para fins medicinais é feita por um processo laboratorial e não
pelo fumo da planta maconha. E quando as pessoas fazem o consumo da planta,
elas ficam expostas não só aos efeitos potencialmente benéficos, mas também aos
perigos da maconha.
Primeiramente, nenhuma substância
terapêutica vai fazer bem se usada na forma de cigarro. Quando se inala a
fumaça quente, queima-se as células da boca, garganta e pulmões. Se faz isso
todo dia, está gerando um dano contínuo a esses órgãos, podendo gerar dor,
desconforto, risco de tosse crônica, bronquite e infecções pulmonares. Todo
dano ao sistema respiratório estimula a multiplicação das células para tentar
reparar, o que aumenta a chance de erros na cópia do DNA e eleva o risco de
câncer.
Outro problema é a composição da
fumaça. O preparo da planta e sua queima gera mais de 100 substâncias perigosas
para saúde. Só a fumaça da maconha tem 69 compostos tóxicos e cancerígenos que
também estão no cigarro comum, como o formaldeído e o acetaldeído. Além do
pulmão, quem sofre com os compostos tóxicos da fumaça são os vasos sanguíneos e
o coração. Eles aumentam o risco de derrame, infarto e morte súbita. Quanto a
maconha, seus efeitos podem prejudicar a capacidade mental a longo prazo.
Cientistas fizeram uma série de
testes para medir habilidades como memória, atenção e velocidade de raciocínio
na infância e aos 38 anos. Quem usou maconha 4 ou mais vezes por semana em
algum momento da juventude tiveram uma piora nas habilidades mentais entre a
infância e a vida adulta. Quando os usuários começaram a usar maconha na
adolescência e de forma frequente, mesmo tendo parado na vida adulta, tiveram
prejuízo das habilidades mentais. Diferente quando o uso da droga começa após
os 18 anos. Na infância e adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento
e ter uma substância alterando o funcionamento dos neurônios é muito perigoso.
A maconha pode causar vício, o
transtorno por uso de canabis, que acontece com cerca de 9% das pessoas que
usam maconha, podendo chegar a 50% em quem usa diariamente. Mesmo na vida
adulta, a maconha danifica regiões do cérebro ligadas à capacidade de julgamento,
tomada de decisões e controle de impulsos. São esses danos que geram o vício.
Ficar sem usar gera um mal físico, com sintomas de irritabilidade, insônia e
perda de apetite.
Usar a maconha diariamente
aumenta em 3 vezes o risco de psicose, que é quando a pessoa não sabe o que é
real e o que está só na sua cabeça. Isso afeta a qualidade de vida, destrói
relações, trabalho e estudos. Então, a melhor forma de aproveitar os benefícios
da maconha é usando os componentes mais bem estudados, CBD e THC, em doenças
específicas e evitar fumar.
Como forma medicinal, a maconha é
uma grande farmácia. De forma recreativa. É difícil convencer um adolescente a
não usar drogas, até porque muita gente faz uso de álcool ou cigarro, ou seja,
são substâncias que você coloca no cérebro e modifica sua dopamina. Pelos
estudos, é mais benéfico a maconha que o álcool ou cigarro. O neurocientista e
psicólogo Carl Hart, em seu livro Drogas para adultos, defende que
qualquer adulto saudável, que convive em sociedade, que paga suas contas, que
não seja violento e tudo mais, possa usar drogas (ele mesmo usa meta-anfetamina).
Nosso cérebro meio que produz
maconha, os endocanabinóides, mas quando você coloca uma substância
exogenamente, pode desbalancear a química cerebral. Há pessoas que estão no
grupo de risco (assim como pessoas que não podem comer açúcar, glúten, leite,
álcool etc), como os adolescentes (até os 25 anos, que é quando termina de
amadurecer o córtex pré-frontal), pois muda o neurodesenvolvimento cerebral. Também não podem: gestantes, pessoas com histórico familiar de psicose,
esquizofrenia, pânico, bipolaridade (bastando usar uma vez para despertar o
transtorno). Definitivamente, adolescente não pode usar maconha, pois vai
deixar sequelas (é como se tivesse marretando algo mole).
Adolescência tem uma "limitação
neurológica". A região envolvida com controle de impulso, inibição de
comportamento, empatia (dificuldade de ver o mundo com os olhos dos outros,
para os adolescentes a única forma das pessoas verem ele é da forma que ele se
vê. Colocaram adolescente numa ressonância e perguntaram como ele se enxerga e
como outras pessoas a enxergam, e as mesmas áreas cerebrais acenderam). Mas
eles tem o sistema dopaminérgico muito forte, pois amam novidade. E essa
novidade não precisa ser coisa ruim, pode ser esporte, livros, músicas ou algo
produtivo.
O THC prejudica uma série de
funções no cérebro. Ele acaba com a memória operacional, que é pegar as
informações, organizar e as coloca em operação. Ex: dificuldade em lembrar o
que foi buscar na cozinha, fazer conta de cabeça, prejudica a aprendizagem. Usando
cronicamente, vai ter um TDAH induzido pelo THC.
Ninguém nunca morreu de overdose
de maconha, mas ela interage com outras drogas que pode trazer risco de vida. O
THC tem efeito antiemético, ou seja, antivômito. Então, por exemplo, quando
ingerimos muito álcool, o corpo tem o sistema de proteção que é o vômito, onde
quando se chega numa dose tóxica, o corpo coloca para fora aquele conteúdo
gástrico. Mas quando combinada com o THC, a pessoa pode consumir muito mais
álcool do que o corpo toleraria e coloca a pessoa em risco de morte. Mas esse
efeito antiemético pode ser útil na medicina, como no tratamento do câncer,
cujos tratamentos provocam enjoo.
Outros efeitos do THC é o
anticonvulsivante, diminui pressão ocular (pacientes com glaucoma), relaxante
muscular, analgésico, broncodilatador (pacientes com asma ou bronquite),
orexígeno (aumenta o apetite, que o oposto do anorexígeno), provoca sono (para
pacientes com insônia).
O THC modula os receptores CB1
(aprendizado) e CB2 (sistema imunológico). A maconha inibe os dois. Ele é um
imunossupressor, então um uso na inibição do CB2 é no combate a doenças
autoimunes. O THC bloqueia a AMP (adenosina monofosfato) de tentar estimular o
corpo a liberar energia de outras formas e assim o corpo entra em estado de
relaxamento intenso.
Nosso corpo produz
endocanabinóides, como a anandamida, o “neurotransmissor da felicidade”. É
possível aumentar ele através de hábitos naturais, como exercícios físicos
aeróbicos (especialmente corrida), chocolate amargo, alimentos ricos em
ômega-3, meditação e contato social. Isso reduz o estresse e inibem a enzima
FAAH (Hidrolase de Amida de Ácido Graxo) que decompõe a anandamida.
O THC sofre um processo hepático,
mas ele é extremamente tóxico pro fígado, trazendo um estresse oxidativo. Outro
efeito nocivo é a espermatogênese, onde os homens tem mais dificuldade de
engravidar as mulheres. A maconha também causa dependência física e química,
causando a tolerância, fazendo as pessoas consumirem doses cada vez maiores
para sentirem seus efeitos. Há também os grandes problemas pulmonares, como
enfisema pulmonar e câncer.
USO MEDICINAL
Então, é uma mentira dizer que
maconha é um remédio natural sem riscos. Legalizar o uso da erva para consumo recreativo é uma coisa, outra coisa bem diferente é fazer apologia
do uso afirmando que é bom e faz bem.
Qualquer substância que entra em
contato com os neurônios pode mudar a forma como estes neurônios se relacionam (os engramas), a forma como você se vê e vê a realidade.
Não existe nada na medicina que
não tenha efeitos colaterais. E se for usar maconha para uso medicinal, então
que seja receitada por um médico, seguindo uma posologia prescrita e
organizada. É preciso perceber se o uso da maconha lhe fez de refém, ou seja,
se sem ele você sofre efeitos colaterais.
Quem se submete à terapia
canabinoide, muitas vezes tem que mudar de dose a cada 2 ou 3 dias. É muito
personalizado, os efeitos colaterais são diferentes, por isso é preciso que o
médico ou sua equipe tenha disponibilidade de tal acompanhamento.
Os principais benefícios deste
tratamento incluem casos de: epilepsia, dor crônica, doenças
neurodegenerativas, ansiedade, depressão, TEPT, síndrome de Tourette, insônia,
quimioterapia (para reduzir náuseas e dores), autismo, doença de Crohn.
PARA QUEM FUMA MACONHA, O QUE
FAZER PARA PARAR?
Primeiro é preciso aceitar que
está dependente e querer se esforçar para vencer o vício. Identificar os
gatilhos que despertam a vontade de fumar. Precisará fortalecer sua vontade
para superar os gatilhos, para isso também precisará mudar seu estilo de vida,
mudar amizades, ambientes e implementar novas formas de gratificação e obtenção
de prazer. Precisa da ajuda não só de psicólogos, mas também de psiquiatra e
ajuda de família e amigos.
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